{"id":10159,"date":"2014-03-03T19:18:22","date_gmt":"2014-03-03T19:18:22","guid":{"rendered":"http:\/\/aprosojabrasil.com.br\/?p=1874"},"modified":"2014-03-03T19:18:22","modified_gmt":"2014-03-03T19:18:22","slug":"grandes-grupos-sao-inviabilizados-na-argentina-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aprosojabrasil.com.br\/comunicacao\/blog\/artigos\/2014\/03\/03\/grandes-grupos-sao-inviabilizados-na-argentina-2\/","title":{"rendered":"Soja: &#8220;retenciones&#8221; fazem grandes grupos agr\u00edcolas deixar a Argentina"},"content":{"rendered":"<p>Estive na Argentina, pelo projeto Soja Brasil, com o objetivo de ver o andamento da safra de soja 2013\/2014, depois de passar pelo Uruguai. Percebi que &#8211; apesar do clima &#8211; o Cone Sul vai conseguir uma boa safra&#8230; Ajudados pela log\u00edstica (os argentinos plantam soja praticamente dentro do porto no rio da Prata, ou numa distancia m\u00e1xima de 300 km), parecem trabalhar com enormes vantagens quando comparados com as dificuldades dos brasileiros.<\/p>\n<p>Mas, em compensa\u00e7\u00e3o, enfrentam uma situa\u00e7\u00e3o dificil de ser entendida at\u00e9 mesmo pelo mais sofrido dos nossos produtores &#8212; \u00e9 que nossos hermanos est\u00e3o debaixo de uma pol\u00edtica de \u00a0taxas e impostos (as chamadas &#8220;retenciones&#8221;), imposta pelo Governo Cristina Kischner, que lhes tira praticamente toda a renda auferida na safra. Em consequ\u00eancia &#8212; e isso foi o que mais me surpreendeu &#8212; essa pol\u00edtica de taxas e impostos extorsivos tem provocado a total extin\u00e7\u00e3o da maioria dos grandes grupos agr\u00edcolas argentinos (que eram os maiores produtores mundiais da oleaginosa).<\/p>\n<p>Para se ter uma id\u00e9ia, o grupo &#8220;El Tejar&#8221;, que, em 2010 plantava 960 mil ha (sendo 340 mil ha no Brasil e na Argentina 300 mil ha), nesta safra n\u00e3o plantou nada na Argentina &#8212; por\u00e9m continuou plantando 200 mil ha no Brasil, Bol\u00edvia e Uruguai. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 essa empresa&#8230; Os demais grandes empreendimentos est\u00e3o sumindo da Argentina. A Los Grobos, que sempre plantava 170 mil ha, este ano plantou 50 mil ha. Outro grupo, o Molinos, que plantou 150 mil ha na safra anterior, nesta safra n\u00e3o plantou nada .<\/p>\n<p>A Argentina teve nos \u00faltimos dez anos a implanta\u00e7\u00e3o de grupos agr\u00edcolas formando grandes sociedades de plantio. Trabalhavam no sistema de pool de plantio, que se baseia em parcerias de um grupo gestor com produtores. E esse sistema de gest\u00e3o alavancou a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os platina a n\u00fameros semelhantes aos dos americanos. Mas a pol\u00edtica populista arrasou com esse sucesso empresarial.<\/p>\n<p>Sebastian Gavaldan, consultor argentino, nos explicou outros motivos que levaram a extin\u00e7\u00e3o desses grandes grupos. O clima foi um deles. Nos \u00faltimos anos tiveram tr\u00eas safras de muita seca e baixa produtividade e o arrendamento se tornou muito caro. Mas o maior problema, sem d\u00favida \u00e9 o governo Kischner &#8212; que fica com 35% do valor da venda da soja (as &#8220;retenciones&#8221;) \u00a0enquanto que na compra dos insumos ele cobra outros 21% do valor, prometendo devolver uma parte em forma de cr\u00e9dito ao produtor, mas a dificuldade \u00e9 conseguir esse dinheiro de volta&#8230;<\/p>\n<p>Por causa de sua pol\u00edtica nacionalista, a Argentina n\u00e3o tem recebido investimentos internacionais. E as empresas nacionais (como os grandes grupos agr\u00edcolas) est\u00e3o preferindo ir para o Brasil ou outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, onde a pol\u00edtica fiscal pelo menos nesse ponto \u00e9 &#8220;aceit\u00e1vel&#8221;. Inclusive grandes grupos brasileiros que iniciaram investimentos na Argentina j\u00e1 recuaram desse prop\u00f3sito devido aos altos custos tribut\u00e1rio e de arrendamento.<\/p>\n<p>Tal situa\u00e7\u00e3o tem \u00a0trazido atrasos \u00e0 agricultura argentina. Os produtores dizem que se n\u00e3o tivesse um imposto t\u00e3o pesado, que \u00e9 de 21% na compra dos insumos e 35% na venda da produ\u00e7\u00e3o, a Argentina em vez de estar produzindo as constantes 100 milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os, j\u00e1 poderia estar produzindo muito mais, no m\u00ednimo 20 milh\u00f5es de ton.<\/p>\n<p>O custo de produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 em torno de 300 d\u00f3lares\/ha, o arrendamento est\u00e1 em torno de 500 a 600 d\u00f3lares ou 1.500 kg por ha. Os pre\u00e7os eram mais caros, mas com a sa\u00edda dos grandes grupos da Argentina o arrendamento caiu de 2.000 kg de soja por ha para 1.500 kg, mesmo assim o arrendamento e o custo de produ\u00e7\u00e3o ficam em 37 sacas\/ha &#8211;, dessa forma, um produtor que arrenda e colhe 60 sacas\/ha tem como despesas 21 sacas de impostos, 12 sacas de custo e 25 sacas de arrendamento &#8212; o que gera um custo total de 58 sacas, ou seja, uma situa\u00e7\u00e3o totalmente invi\u00e1vel para se produzir por l\u00e1.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 relatei acima, a safra argentina est\u00e1 boa, apesar da seca em dezembro e a chuva em excesso no m\u00eas de janeiro (quando choveu em 15 dias de janeiro praticamente a metade do que deveria ter chovido o ano todo). Mesmo com esse cen\u00e1rio, as lavouras est\u00e3o saud\u00e1veis, e devem fechar a safra com n\u00fameros maiores que a passada, que foi de 47 milh\u00f5es de toneladas. As consultorias, inclusive a Bolsa da Argentina, estimam n\u00fameros pr\u00f3ximos a 53 milh\u00f5es de toneladas.<\/p>\n<p>Entretanto, outro problema presente na safra argentina tem sido as lagartas, que foram tamb\u00e9m um dos principais problemas da produ\u00e7\u00e3o 2013\/2014 do Brasil. A diferen\u00e7a \u00e9 que na Argentina o controle fica de 10 a 15 d\u00f3lares, enquanto que no Brasil uma aplica\u00e7\u00e3o de inseticida custa o dobro. Al\u00e9m do mais o registro de produtos na Argentina \u00e9 mais r\u00e1pido e custa menos, e, com isso, o pre\u00e7o dos produtos \u00e9 mais baixo. Na Argentina eles t\u00eam tamb\u00e9m uma lagarta da mesma fam\u00edlia da Helicoverpa armigera, chamada por eles de Bolillera.<\/p>\n<p>A semente Intacta ainda n\u00e3o foi plantada no pa\u00eds. Os argentinos dizem que pretendem plant\u00e1-la, pois agora enfrentam as lagartas. S\u00f3 que n\u00e3o contam com alternativas, \u00a0pois como os produtores de l\u00e1 n\u00e3o tem pago royalties pela biotecnologia, a maioria das empresas n\u00e3o tem investido em novas tecnologias &#8212; inclusive empresas sementeiras argentinas tem investido mais no Brasil do que na Argentina &#8211; situa\u00e7\u00e3o que preocupa o setor.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o a que cheguei \u00e9 que os produtores argentinos t\u00eam um dos solos mais f\u00e9rteis do mundo (tanto que em anos que o clima ajuda e nas \u00e1reas de piv\u00f4-central as produtividades t\u00eam sido pr\u00f3ximas de seis toneladas\/ha), por\u00e9m est\u00e3o diante desses dilemas (as &#8220;retenciones&#8221;), que est\u00e3o \u00a0inviabilizando o setor.<\/p>\n<p>Mesmo com as dificuldades quase que intranspon\u00edves, \u00e9 claro que a produ\u00e7\u00e3o argentina continuar\u00e1, s\u00f3 que \u00e0 custa da economia de muitos produtores &#8212; que perderam o trabalho de toda uma vida&#8230; Enfim, temos aqui no Brasil nossos problemas, e eles l\u00e1 t\u00eam os deles&#8230;, o importante nesses contatos e nessas trocas de informa\u00e7\u00f5es propiciado pelo Soja Brasil \u00e9 aprendermos com as dificuldades m\u00fatuas. N\u00e3o queremos passar, no futuro, pelos mesmos dramas vividos pelos argentinos. Por isso, o que n\u00e3o se pode \u00e9 desistir de lutar.<\/p>\n<p>*Glauber Silveira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estive na Argentina, pelo projeto Soja Brasil, com o objetivo de ver o andamento da safra de soja 2013\/2014, depois de passar pelo Uruguai. 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